As “Teles” (desconsidere a tele-entrega, por favor) nasceram com a possibilidade da comunicação à distância em tempo real. Fazendo um resumo bem simplista, primeiro veio o telefone, depois a internet. Isto fez com que a distância entre as pessoas fosse cada vez menos um obstáculo para a interação, o que teve inúmeras consequências e foi decisivo da formação da sociedade complexa e globalizada que vivemos hoje. Muitas destas consequências foram, por sua vez, responsáveis por parte da mudança no clima, é verdade. Mas como não queremos voltar no tempo, vamos adiante.
Hoje eu participo de ‘algumas’ comunidades (entre discussões e desenvolvimento), trabalho em casa usando o servidor da empresa e falo com pessoas que não moram na mesma cidade sem perder um segundo com deslocamento. Assim como é possível conversar, também é possível exercer várias atividades profissionais sem gastar combustível nem papel. Acho que dá para agrupar estas atividades usando o termo Teletrabalho, apesar do uso do termo ainda ser meio restrito.
Neste BlogActionDay, escolhi falar um pouco sobre a Telerradiologia, porque está no escopo das minhas pesquisas mais recentes, e de suas vantagens em relação ao trabalho “não-tele” para a manutenção do clima no nosso planeta.
A Telerradiologia
Quando foram descobertos os Raios-X, iniciou o surgimento da área da medicina conhecida como Radiologia, ou Diagnóstico por Imagens. De lá para cá, outros equipamentos surgiram, até mesmo utilizando outras tecnologias diferentes no raio-x (veja o post sobre Diagnóstico por Imagens para entender algumas delas).
Hoje a maioria dos equipamentos fabricados já capta imagens digitalmente, dispensando qualquer tipo de filme ou impressão, com mais resolução e qualidade de imagem. Para facilitar a troca de informações e fugir dos formatos de arquivos proprietários foi criado o padrão DICOM, que possibilida a troca de arquivos de imageamento médico sem preocupação com diferenças entre softwares ou sistemas operacionais.
Hoje, ainda se usa imprimir os exames, por dois motivos: (1) algumas clínicas e hospitais ainda não obtiveram recursos para trocar seus equipamentos antigos (analógicos) pelos novos (digitais) e (2) porque a maioria dos médicos ainda não aderiu ao uso do digital. Por incrível que pareça, a segunda causa é mais comum que a primeira!
Porque ainda não emplacou?
As razões que ouvi de médicos nos últimos meses foram as mais variadas, desde tabus (“a imagem digital tem menos qualidade que a analógica” ?!) até a falta de conhecimento geral de informática, passando até pela omissão da legislação brasileira a respeito da segurança para a manutenção de bancos de dados de imagens médicas.
Pelo menos o tabu dá para esclarecer: Ao contrário de alguns mitos que ouvi, a imagem digital tem mais qualidade, ou seja, mais resolução espacial e mais níveis de cor, do que a imagem analógica ou a digital impressa. E quem analisa ainda tem a vantagem de usar algumas ferramentas facilitadoras de visualização, que vão desde o zoom até a reconstituição 3D.
Como esta tecnologia pode ajudar a combater a mudança do clima?
Imprimir menos (ou nada): Na maioria dos casos, não seria necessário imprimir exames se o radiologista e o médico solicitante tivessem o equipamento (computador) e o conhecimento básico para analisá-los no monitor. Imprimir menos significa menos matéria prima (papel/filme/tinta), e por consequência menos atividade industrial.
Diminuição do deslocamento de pacientes: A ida à clínica para fazer o exame ainda não se pode evitar, mas a ida à clínica para “pegar” o exame seria abolida. Isso diminui o gasto com combustível e a emissão de carbono do veículo utilizado. É pouco? Pense nas pessoas que moram em cidades do interior e viajam 200, 300Km para exames e consultas!
Diminuição do deslocamento de cópias físicas: Nos casos em que as pessoas não precisam ir buscar os exames pessoalmente, eles são enviados por correio, ou levados por entregadores até os consultórios. Isto também gasta combustível e emite carbono. Não pense em UM envelope, pense em milhares deles.
Diminuição do deslocamento de profissionais: Aqui vou usar um exemplo. Conheço um Odonto-radiologista que vai à clínica à noite para trabalhar sozinho nos laudos que precisa emitir. Ele não tem que estar presente quando o paciente é submetido ao exame (quem faz isso é um técnico), e prefere trabalhar à noite, quando a clínica está vazia. Se a base de dados da clínica fosse acessível remotamente, ele poderia trabalhar em casa!
A Telemedicina
A Telemedicina vai além da distribuição e análise de exames. Hoje é possível consultar especialistas remotamente (a lei exige que o paciente tenha um acompanhamento presencial, mas este médico pode contatar outro médico na presença do paciente, ou após a consulta); é possível realizar cursos de atualização para os médicos e palestras de esclarecimento e conscientização para público em geral de forma remota. Com o equipamento certo, até cirurgias podem ser realizados remotamente.
Mais?
Assim como estas, outras atividades profissionais já têm todas as ferramentas para serem realizadas de forma remota, pelo menos em parte. Exemplos: Tele-desenvolvimento de software; Tele-grupos de pesquisa; Tele-contabilidade, outras. Alguas atividades podem ser parcialmente “Teles”, e presenciais quando é realmente necessário.
Não falo de terminar com a interação o humana. O contato entre pessoas é saudável e necessário. Nem falo de ficar sem sair de casa, mas acho que a obrigação do deslocamento precisa diminuir, até mesmo para diminuir os engarrafamentos…
Fotografia do telefone: de IorZ.

