Diâmetro de Feret é uma medida que ganhou importância na análise de partículas durante os últimos… 80 anos, pelo menos. É uma forma de caracterizar tamanho, que não depende da posição do objeto na imagem. Apesar da definição aparentemente simples, a evolução do conceito criou um conjunto de medidas. Feret Máximo e Feret Mínimo passaram a ser usados amplamente como medidas que descrevem comprimento e largura de partículas.
(Este artigo é inspirado em uma pergunta do leitor Grégori Troina – Obrigada!)
Aparentemente a origem desta medida está em um artigo de 1931, publicado em Zurich por Feret, L. R., e neste artigo da Nature, aparece como uma das alternativas para a medição de partículas. Se é esta a origem, o termo correto é Diâmetro de Feret, não Diâmetro de Ferret, como já usei em outro artigo. Mas ao pesquisar é bom procurar pelas duas formas, já que a última é bem comum também.
O motivo de procurar a origem é para dar uma ideia de como as ciosas acontecem na ciência. Provavelmente o cientista que primeiro documentou esta medida não sabia se ela seria útil para mais alguém, mas logo outros descobriram e passaram a usar, então o próprio conceito evoluiu.
No artigo da Nature (do qual só li o resumo porque tem que comprar para ler inteiro), a definição que aparece no resumo é “the perpendicular distance between parallel tangents touching opposite sides of the profile”. Esta definição aparece também em trabalhos mais recentes, com pequenas variações, e no Help do ImageJ está assim:
The longest distance between any two points along the selection boundary, also known as maximum caliper.
Seguindo o rastro das definições ao longo do tempo, pude perceber que, no início, a definição fazia menção à medida em qualquer direção, ou “uma direção arbitrária”. Então alguns pesquisadores, para conseguir uma medida independente da posição do objeto, passaram a usar o que chamaram de Feret Máximo, que é o Diâmetro de feret máximo que se pode encontrar na partícula.
Esta medida passou a ter mais valor que o Feret de direção arbitrária, e passou a ser conhecida, ela mesma, como Diâmetro de Feret.
Obs: Isto é só o que eu acho que aconteceu, baseado em alguns dos artigos que parei para ler, entre as mais de 1 600 ocorrências desta expressão do Google Scholar. Para um artigo científico eu teria que pesquisar bem mais.
A medida perpendicular ao Feret Máximo (ou simplesmente Feret) é o Feret Mínimo. Note que este não é o diâmetro mínimo encontrado na partícula, e sim a medida perpendicular ao máximo.
Um exemplo no ImageJ
O ImageJ tem esta medida implementada (na versão moderna). A sequencia de imagens abaixo é para dar uma ideia de como cheguei na imagem segmentada, mas não vou entrar em detalhes aqui. Vamos direto para a tabela de resultados.

Segmentação da imagem: canal verde; threshold, watershed.
Nas versões mais recentes do ImageJ, a documentação sobre Feret não cobre mais todos os resultados que aparecem na tabela. Outro dia um leitor me perguntou o que eram o FeretX e o FeretY, e eu fiquei tentando descobrir.

Esquema dos resultados mostrados pelo ImageJ, relativos ao diâmetro de feret.
FeretX e FeretY são as coordenadas do primeiro ponto da linha que representa do Feret Máximo (que no ImageJ é chamado simplesmente de Feret). Isto tem utilidade mais para desenhar a linha do que qualquer outra coisa.
O FeretAngle é o ângulo formado entre o plano horizontal e a linha do Feret Máximo, no sentido anti-horário. E o Feret Mínimo é a medida perpendicular ao Feret Máximo, que inclui toda a partícula. É como se desenhássemos duas linhas paralelas ao ferret máximo, uma de cada lado, tangenciando a partícula, e medíssemos a distância entre elas.
Tudo explicado.
Até mais!




Gabriela, boa tarde! Tenho uma pergunta pra você… qual o Feret que melhor representa a abertura da malha de uma peneira – série Tyler? Numa partícula acicular, é razoável que se pense no MiniFeret, como sendo a abertura pela qual a partícula passe. O que ocorre com uma partícula de morfologia bem irregular, multi-facetada, com vários valores de Feret? Grato! Gilberto
Oi, Gilberto!
Eu acho… que teoricamente você está certo. Mas eu faria um experimento simples para comprovar.
Você pode fotografar um conjunto de partículas e depois peneirar este conjunto, e então fotografar a parte que passou e a parte que não passou. Depois compare as medidas das partes para comprovar a sua teoria (ou criar uma outra).
A vida real é sempre um pouco mais complicada que nossas teorias, por isso é bom conferir os resultados com um conjunto de dados reais antes de sair medindo tudo pelas imagens… sempre que possível, é claro.
Até mais!